sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Utilidade, Mário Dionísio

Só as mãos que se estendem para a frente interessam.
só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda, nem nunca, será nossa
interessa.

«Reunião Clandestina», óleo s/ tela, 97 x 130. Exposto na III EGAP (1948), na exposição Arte Moderna -Vértice (1949), em Almada (1949), com o título «Interior»; na Galeria Nasoni (1989), no Celeiro da Patriarcal de Vila Franca de Xira (1991), CAM da FCG (1991), na exposição Neo-Realismo/Neo-Realismos (1996), no Museu da Resistência e Coimbra (1996), na Abril em Maio (2001), na exposição «Um tempo, um Lugar» em Vila Franca de Xira (2005).
Reunião Clandestina, 1947

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Português para Estrangeiros: 5º Ciclo | Balanço Intermédio

Está neste momento a decorrer, na Biblioteca da Penha de França, o 5º ciclo do Projecto Português para estrangeiros. E, como já vem sendo hábito, continuo a ser surpreendida pelos participantes, seja pela sua origem, seja pelas suas histórias de vida, que, por vezes, me fazem sentir pequenina… e com tanto a aprender sobre a humanidade e sobre resiliência.
Este ciclo inclui 8 nacionalidades, a saber: francesa, ucraniana, egípcia de origem nubiana, ruandesa, italiana, chinesa, nepalesa e senegalesa. Os participantes são maioritariamente mulheres, sendo três repetentes, que em edições anteriores não puderam assistir a todas as sessões.
Em termos de formação, a maioria tem formação superior, sendo que duas são na área da saúde (farmácia e enfermagem), que, enquanto não dominarem a língua, não conseguirão trabalho na sua área.
No que diz respeito a participantes financeiramente mais desfavorecidos, é relevante constatar que as diversas instituições de cariz social locais nos reencaminham diversos utentes e que é junto destes que detectamos as situações que poem à prova o nosso lado mais humano. Deparamos com casos de solidão e quase exclusão social por falta de domínio da língua, mas também casos de problemas familiares que estão na origem de situações depressivas sobre as quais mais não podemos fazer do que sinalizar junto dessas mesmas instituições.

Contribuir para a melhoria da auto-estima destas pessoas e perceber que elas encaram este espaço como um local de segurança para poderem experimentar sem qualquer exigência ou repressão sobre eventuais falhas e erros, é, para mim e para os meus colegas, uma validação do nosso esforço e empenho. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Comunidades de leitores: quando a nossa aprendizagem se expande

A participação e a dinamização de uma comunidade de leitores é um incentivo contínuo à minha aprendizagem. Não só conheço novos autores e temas, como reaprendo conceitos já esquecidos. Procurar informações e tecer novas ligações é uma fonte de adrenalina e só tenho a agradecer por as comunidades serem estes catalisadores.
Na última sessão, dedicada a Machado de Assis, veio-me à mente uma memória ténue de que Umberto Eco, ao escrever O Nome da Rosa, procurou demonstrar a sua tese de que uma obra de arte deve conseguir corresponder às necessidade e expectativas de três tipos de público. Mas já não conseguia precisar a sua terminologia e fui pesquisar. Ao faze-lo, recordei que esses três tipos de público, na verdade, correspondiam aos conceitos de baixa, média e alta cultura. Ou seja, Eco defendia que o valor da obra é tão grande quanto a sua capacidade de dialogar com os públicos em diferentes níveis, desde a simples narrativa, passando pelas nuances, referências culturais e estruturas. E o que tem isto a ver com Machado de Assis? O acolhimento desta obra por diversas gerações e abrangências geográfica é uma prova da sua capacidade de dialogar com os públicos de baixa, média e alta cultura.
Já para a próxima sessão, dia 25 de outubro, foi com grata surpresa que li O dia cinzento e outros contos, de Mário Dionísio. Consequentemente, descobri um pouco sobre a sua poesia e a sua pintura. E, claro, agora estou curiosa para descobrir mais.

Estes são apenas dois exemplos de como uma comunidade de leitores expande os nossos horizontes, não só literários, mas de percepção do mundo e de como podemos agir nele. 


domingo, 15 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 (2017)

Há uns meses atrás, revi Perigo Eminente, título português para o filme Blade Runner original. Tinha na memória a mítica cena em que o vibrante olhar azul de Rutger Hauer se extingue, cumprindo-se, assim, a sua programação andrónica que possuía um prazo de validade.
Esta era uma versão futurista de um frankenstein biónico que procurar ultrapassar os horizontes (neste caso temporais) a que o seu criador o veta. Criador este que, como todos os demais, querem sempre que as suas criaturas cumpram os seus objectivos e nunca as aceitam como potencialmente iguais, já para não dizer superiores. Mas, tal como todas as criaturas, estas rebelam-se. Para as capturar e exterminar, entra em cena Deckard. Mas, ah a ironia, este acaba por se apaixonar por um modelo mais recente de Replicantes (nome aqui dado aos androides), que não possui o tal prazo de validade, e acabam por fugir, também eles, à perseguição.
O que nos traz a Blade Runner 2049…
E (spoiler alert!), afinal, dizem-nos que o próprio Deckard é um Replicante e a sua relação com Rachel possibilitou um tremendo avanço evolutivo, até ao momento, irreplicável. O que nos leva a uma nova perseguição, que, não sendo surpreendente, tem mais reviravoltas e elementos de despiste do filme original. Ou seja, em termos de enredo, embora possibilitasse reflexões profundas, o filme original tinha uma história linear e simples. O filme actual (que não é um remake, mas uma sequela) já apresenta estratégias narrativas mais complexas, embora estejamos todos já tão habituados às mesmas, cujo resultado não é exatamente nenhuma surpresa. É-nos dada toda a informação, apenas temos de ligar os pontos de forma diferente da que nos é primeiramente apresentada.
A maior dificuldade na ligação desses pontos não é a nível de coerência interna, mas sim de relacionamento com a nossa realidade. Ou seja, as questões ou a realidade explorada no filme original continua a estar mais próxima de nós, o que nos permite reflectir, mas não nos suscita dúvidas, digamos, “técnicas”. Já a actual proposta de enredo, mantem as mesmas possibilidades de reflexão, mas é muito mais distante do nosso estado actual de realidade, o que nos deixa mais dúvidas “técnicas” que aumentam a sensação de inverosimilhança. Dúvidas essas, claro, que não são respondidas, nem sequer apontados caminhos.
Em termos de estética e ambiência, há um excelente compromisso entre o original e a incontornável evolução tecnológica e possibilidades digitais actuais. E, aí, se possível, recomendo ver o filme no cinema (com ou sem outras opções mais avançadas).
Uma das sensações que transparece neste filme é a de sentida homenagem ao filme de 1982 e nesse sentido nenhuma das personagens é esquecida, seja através da sua recuperação, seja na replicação de momentos chave da história. E a chuva transforma-se em neve...

sábado, 14 de outubro de 2017

but, aren't we replicants, after all?
aren´t we sheep chasing electronic crumbs
of false affection, of false happiness?
We live fake lives as we struggle through foggy days
of uncertain future
we perpetuate ourselves in empty, mindless jobs
we pay the mortgages we were stupid enough to take in
sharing nights with aperson we no longer recon (if we ever did)
raising kids hoping for tax return or elderly support.
Yes, we are just mere replicants of a social order
that doesn't give a damn for us. 

The Mad Hatter

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Gods, mutants, jedis
masters or slaves of a bothering immortallity
playng with foolish human hearts
hoping to haste an end
fighting against each other

or fading to our disbelief

Hengki Koentjoro

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

No teu poema, Ary dos Santos

No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.

Jungho Lee

sábado, 7 de outubro de 2017

Lideranças institucionais e estados de graça

As instituições são marcadas por lideranças passageiras e engane-se quem pensa o contrário. Mesmo que os seus atores pretendam alonga-la o mais possível no tempo, esta nunca deixa de ser passageira. E os raros casos de longevidade devem-se muitas vezes nem sempre à competência, mas há falta de alternativas.
Uma outra característica destas lideranças é o iniciático estado de graça. Mais ou menos breve, mas nunca duradouro. E é raro o caso em que se sai de funções neste estado. Regra geral sai-se em desgraça.
O que, regra geral, muitos não entendem, ou fingem não entender, é que há lideranças que têm poucas hipóteses de qualquer momento de graça sequer. Estão, apesar, não direi da competência, mas de qualquer esforço ou vontade, fadadas ao aparente falhanço. Como em tudo na vida, nem sempre somos ineptos, mas as circunstâncias negativas e/ou opressivas, cuja duração é indeterminada, conferem uma apreciação negativa dessa liderança. Mas esses líderes têm afinal algum mérito: o de garantir a própria continuidade, por vezes legal, dessas instituições. Porque, quando as conjunturas são favoráveis, não falta quem queira assumir a liderança. Quando não são, todos olham de lado, assobiam e afastam a água do capote.
É fácil apontar culpas. Sim, é mesmo muito fácil. O difícil é ter a hombridade de respeitar quem assumiu o papel inglório de liderar quando o mais que se poder fazer é manter o barco à tona. Quando a maré muda, lá estão os dedos a apontar o mau estado do barco. Mas se este não afundou a alguém se deve. E esse esforço raramente é reconhecido, porque esse reconhecimento implica que assumir que quem rodeia o líder também não esteve há altura do desafio. 

Ruminant Reserve

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Meredith & I

Começou esta semana, num canal de cabo, a 14ª temporada de A Anatomia de Grey, que acompanha as desventuras da cirurgiã Meredith Grey num hospital de Seattle. E dei por mim a contabilizar que esta série tem acompanhado a maior parte da minha vida adulta. Então, é razoável ponderar se esta contribuiu de algum modo para o meu crescimento.
Uma das catch phrases utilizada na publicidade da série diz algo como: sou a melhor pessoa para te ajudar, porque, provavelmente, não há nada que já não tenha visto. Embora inverosimilhantemente, esta personagem já sobreviveu a uma tentativa de suicídio, à relação obsessivo-depressiva com a mãe e o seu diagnóstico com Alzeimer, um acidente de aviação,à morte da irmã mais nova, ao aparecimento de uma nova irmã, um relacionamento conturbado e uma ex-mulher, uma adopção, mais dois filhos, uma viuvez, um ataque de violência física... e a um grupo de amigos a quem aconteceu o que não lhe aconteceu a ela.
Em 13, 14 anos também muito mudou na minha vida. Descobri muito sobre mim, embora nem sempre tenha gostado do resultado. Descobri-me mulher, com forças e fragilidades. Situações que julgava permanentes e inalteráveis, e que até julguei durante muito tempo de marasmo, reverteram-se irremediavelmente. Perdi bens materiais e perdi pessoas. Os primeiros aprendi a superar. Quanto às pessoas, bem, tenho apenas a dizer que há lutos que perduram uma vida inteira. A verdade é que passei vários anos num continuo processo de luto de perspetivas de futuro e daqueles que eram, e continuam, a ser queridos.
E quem me acompanhou? A família, os amigos e, por mais estúpido ou ridículo que possa parecer, Meredith Grey. Olhando para trás, mesmo apesar de todas as incredulidades de uma série com 14 temporadas, com as quais ri, a verdade é que os episódios que me fizeram chorar foram a catarse e o escape necessário a muitos momentos de tristeza e de impotência perante as circunstâncias.
As reflexões iniciais e finais de cada episódio fizeram com que o antes e o depois, a acção e a consequência fossem mais fáceis de aceitar. Esta personagem passou por imensas transformações, sofreu, sobreviveu e voltou a encontrar a felicidade. Uma felicidade diferente, uma aceitação diferente. Esta mulher, e em momento algum podemos esquecer que estamos a falar de mulheres, é uma sobrevivente. Nós mulheres somos sobreviventes e se há algo que nos caracteriza é essa capacidade inata de resiliência. E é essa resiliência que que alguns episódios, através de inumeras lágrimas derramadas e muitos sentimentos contraditórios, me ajudaram a encontrar. E é isto, Meredith acompanha-me há 14 temporadas. E eu continuarei a acompanha-la durante tantas temporadas quantas me fizer sentido continuar a seguir e a encontrar nas suas desventuras o consolo ou o animo para seguir em frente. 
Título Original: Grey's Anatomy | Ano: 2017 | Temporada: 14 | Criadores: Shonda Rhimes | Elenco: Ellen PompeoJustin ChambersChandra Wilson, James Pickens Jr., Kevin McKidd, Jessica Capshaw, Jesse Williams, Sarah Drew, Camilla Luddington, Jason George, Caterina Scorsone

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O dia cinzento e outros contos, Mário Dionísio

Esta foi a minha primeira incursão na escrita deste autor, cuja obra polifacetada está na origem de um grande dinamismo cultural, não só através da análise que suscita, mas também pela actividade da Casa da Achada.
Esta leitura foi uma grata surpresa. Mas, o que há a dizer sobre este livro? Tanto, poderemos dizer. Mas a verdade é que pouco se pode acrescentar ao que o próprio autor já nos diz no seu prefácio para a reedição de 1977. Segundo este, o objectivo da sua escrita é “acordar naqueles que o lessem a consciência da injustiça social e a necessidade de agirem contra ela.”; “o fito era contribuir … para a transformação do mundo.” (p. 11) E como é que o pretende fazer? Mostrando “o lado de dentro das pessoas, isto é, que um certo conceito superficial da luta de classes tendia a reduzir a fórmulas estereotipadas…” (p. 15)
A escrita de Dionísio é profundamente marcada pela ideologia política, mas isso não significa a adopção de um discurso maniqueísta. Aliás, as suas personagens espelham humildemente as dúvidas e receios que as suas escolham implicam, porque isso significa deixar para trás perspectivas de vida e pessoas. O que nem sempre se revela fácil ou simples: “Era preciso que esse mundo e esse destino, esse sonho, pesassem mais do que a ternura daquela boa rapariga.” (p. 94); “planos de quem resolveu escolher, em cada caso, a situação menos confortável porque qualquer outra se lhe afigura fruto da injustiça.” (p. 198)
Situado cronologicamente, e pelos seus críticos, na corrente do neo-realismo, o próprio autor explica o que há de diferente na sua escrita: “a fase inicial do neo-realismo está cheia de campo e camponeses ou dos meios que, mais ou menos directamente, a eles se ligavam: a aldeia, a a vila, a cidade de província.” Mas não é nestas gentes e locais que o autor vai buscar a sua matéria prima, porque “ havia a cidade, a grande cidade, a descobrir também.” (p. 14)
A sua escrita é de aparente simplicidade, simultaneamente reconfortante e aliciante, consonante com o tipo de homem que a sua escrita quer retratar: um homem sem artifícios, disposto a sacrifícios por um ideal, mas sem deixar de avançar indelevelmente.
“Às vezes as coisas mudam, … Pequenas mudanças que nos dão força para grandes mudanças.” (p. 111)

Editora: Europa-América | Colecção: Livros de Bolsos (nº 182) | Local: Mem Martins | Edição/Ano: 4ª, Maio 2011 | Págs.: 214 | ISBN: 978-972-102801-1 | DL: 327726/11 | Localização: BLX SL 82P-34/DIO (80304531)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Clube dos poetas vivos #4

Katerina Kamprani
Matéria inútil
o pé a encravar a unha
não vás, fica
não me deixes
julgamos que o pé vai
mas fica
ela sim, ela vai
corta com a raiz
segue para o mundo
perde-se em recantos
de lixo e tesouro
vírgula solta virgula no estômago
vírgula certa, vírgula errada
vírgula que tudo muda
e eu a querer desvirgular
a vírgulação que me colocaste
amontoada no coração
saltito mas não não voo

ecoando o vazio abarrotado de enumerações que não me acrescentaste

sábado, 30 de setembro de 2017

Leituras nos Transportes Públicos #17.09

SETEMBRO
3
6
A catedral do Mar, Ildefonso Falcones

Só nós dois, Nicholas Sparks

Ave de Mau Agoiro, Camila Lackberg

Vindima, Miguel Torga
7
Metro 2033, Dmitry Glukhovsky

A conspiração, Dan Brown

8
The seasons of life, Jim Rohn

A terra das ameixas verdes, Herta Müller

O principio de Dilbert, Scott Adams 

O Maçon de Viena, José Braga Gonçalves 
9
Índice médio de felicidade, David Machado
10
11
O castelo de vidro
12
O deslumbre de Cecilia Fluss, João tordo
13
Escrito na água, Paula Hawkins

O evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago

Espero por ti, Jennifer Armentrout 
14
Caminhos Sombrios, Sandra Brown
16
18
O ano da morte de Ricardo Reis, José Saramago
19
Mister Gregory, Sveva Casati Modignani 
20
Círculo Matarese, robert Ludlum

As palavras que nunca te direi, Nicholas Sparks

Flor de basalto, Madalena Brito Neves 
21
Três contos da índia, Rudiard Kipling

Memoirs of a geisha, Arthur Golden
22
Tudo o que pensar, pense ao contrário, Paul Arden

O Deus das pequenas coisas, Arundhati Roy

Foco, Daniel Goleman
25
O Pianista, José Rodrigues de Carvalho

A Sexta Extinção, James Rollins
26
A morbid taste for bonés, Ellis Peters 

O luto de Elias Gro, João Tordo
29
Obras completas, Juan Rulfo

As Palavras Caladas, Pedro Miguel Lamet

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Eu não quero uma área reservada a mulheres nos transportes públicos

Ruminant Reserve
Parece (não, não fui confirmar) que há uma candidata autárquica que propõe a existência de áreas reservadas a mulheres nos transportes públicos, como forma de impedir o assédio sexual. O que é que eu tenho a dizer sobre o assunto? Esta é uma forma demagogo-pateta de resolver uma situação que, é verdade, incomoda muitas mulheres. Mas, como para muitas outras situações sociais, a solução não é simples, única e rápida. E esta é uma não solução. Porque não resolve o problema nas suas origens. 
Então, o que pode ser feito? Primeiro, andar de transportes públicos, que, regra-geral, é algo que os decisores e dirigentes políticos e públicos não fazem. Depois, perceber, de uma vez por todas, que as medidas preventivas de segurança a implementar não são para bem das mulheres, são para bem de homens, crianças e idosos. Aliás, até acho (tenho a certeza) que a CRP proíbe este tipo de tratamento desigual entre os seus cidadãos. E realmente acham que é boa ideia reincidir em qualquer tipo de segregação?
Estas são algumas ideias do que poderá ser feito para melhorar a vida de TOD@S os utilizadores de transportes públicos:
·         Garantir transportes numa periodicidade que impeça que os seus utilizadores tenha de esperar grandes períodos de tempo em locais isolados, não vigiados e sem qualquer iluminação pública;
·         Garantir que qualquer paragem de autocarro esteja devidamente iluminada e junto de qualquer tipo de casario ou zona empresarial, que permita uma maior prontidão de socorro;
·         Garantir que há horários afixados em todas as paragens, de modo a que, previamente, se possa programar a ida e a vinda da mesma:
·         Garantir que os acessos pedonais às paragens e estações são igualmente iluminados e, se possível, com passagem de rondas policiais ou de segurança privada;
·         Apostar na educação para a cidadania, para que algumas pessoas, devido à sua pequenez intelectual, percebam que a força não é a única forma de abordar uma mulher ou homem ou sénior ou criança;
·         Educar para cidadania de modo a que, perante uma situação explicita ou até duvidosa, ninguém hesite a agir em apoio de um outro alguém.

Como veem, há muito a fazer para que TOD@S se sintam seguros nos transportes públicos.